Ebook Salll · Nº 19 · Fundamentos de decisão

Você comprou a primeira posição. Ninguém te disse quantas vezes ela aparece.

Um banner na oitava posição de um carrossel que gira aparece pra 29 de cada 100 pessoas. Um mini banner fixo, numa dobra mais abaixo, aparece pra 100. O primeiro é o espaço nobre, custa mais e vai no relatório. O segundo é o espaço modesto, custa menos e ninguém comemora. Só que a conta que importa não é a do tamanho: é a do que cada espaço entrega dividido pelo que ele custa. E o custo tem quatro denominadores, não um. Este guia ensina a fazer essa conta, e a usar ela pra escolher entre dois espaços quaisquer: dois banners, duas imagens, dois módulos de conteúdo, duas telas de distância até a informação que decide a compra.

Leitura de 31 minutos · Marca-demo: Café Salll Manaus · Salll · salll.com.br

Capa do ebook A Conta da Eficiência
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Antes de falar de método

Seis perguntas que separam o espaço caro do espaço eficiente.

A cena se repete em toda mesa de negociação e em toda revisão de PDP: alguém defende um espaço pelo tamanho, pela posição ou pelo preço, e ninguém na sala tem como contestar, porque ninguém trouxe o denominador. Este guia existe pra você entrar nessa sala com as seis perguntas abaixo respondidas, e sair de lá tendo comprado entrega em vez de ter comprado destaque.

?

O espaço que você comprou é fixo ou rotativo? Se rotativo, quantas posições giram, e qual é a sua chance real de ser exibido numa visita?

?

Em que dobra ele vive? Você sabe quantos cliques a dobra de cima entrega e quantos a sua entrega, ou só sabe que "está na home"?

?

Quando a rede te mostra uma taxa de conversão, você pergunta qual é o denominador dela? E a janela de atribuição? E se existe grupo de controle?

?

Dentro da sua própria PDP: quantos cliques separam o shopper da informação que decide a compra dele? Você já contou, ou está supondo?

?

Você compra pelo tamanho da audiência ou pela intenção dela? Home tem mais gente. Busca tem gente que já digitou o que quer.

?

Se eu te pedir agora pra ordenar os cinco espaços que você comprou este ano por eficiência, você consegue? Com qual número?

As três primeiras são sobre o que você compra do varejo. A quarta é sobre o que você controla sozinho, de graça, e é a mais ignorada das seis. A quinta é sobre onde a atenção já está madura. A sexta é o teste: se não dá pra ordenar, não dá pra otimizar, e o orçamento do ano que vem vai ser decidido por quem falar mais alto na reunião.

A frase que resume a tese

"Eficiência não é o que o espaço entrega. É o que ele entrega dividido pelo que custa."

01
Capítulo 1 · O tamanho é a métrica mais fácil de vender e a mais fácil de errar

Todo kit de mídia vende posição. Quase nenhum vende exibição.

Quatro mídia kits brasileiros de 2026, de redes de portes e categorias diferentes, foram normalizados numa mesma taxonomia pra este guia. O padrão é claro e é o mesmo em todos: a tabela de preço é organizada por superfície (home, busca, categoria, checkout) e por posição dentro da superfície (primeiro banner, segundo banner, vitrine, rodapé). O preço sobe com a nobreza aparente do lugar. Num supermercado regional, a primeira posição do banner principal custa 67% mais que a segunda a quinta posição do mesmo banner. Mesma superfície, mesmo formato, mesma peça: o prêmio é só de ordem.

Isso não é escândalo. Ordem vale mesmo. O problema é o que a tabela não diz: qual é a probabilidade daquela posição ser vista numa visita qualquer, quantos cliques ela costuma entregar, e o que acontece com esses números uma dobra abaixo. Sem isso, você compara preços de coisas que não são comparáveis, e a comparação sempre pende pro lado de quem tem a peça maior.

67%
a mais é quanto custa a primeira posição do banner principal em relação à segunda, na mesma superfície e no mesmo formato.
Mídia kit 2026 · supermercado regional (anonimizado)
29%
é a chance de exibição da 8ª posição de um carrossel rotativo de home: a cada mil visitantes, cerca de 278 chegam a ver a peça.
Relatório de resultados 2026 · atacarejo (anonimizado)
100%
é a chance de exibição de um mini banner fixo posicionado mais abaixo na mesma home. Não gira, então não sorteia.
Relatório de resultados 2026 · atacarejo (anonimizado)
-98,5%
é a queda de cliques semanais do topo ao rodapé da home de uma rede que declara essa curva: 9.025 no banner principal contra 135 no rodapé.
Mídia kit 2026 · rede de farmácia (anonimizado)
Por que os números estão anonimizados. Os mídia kits são material comercial recebido em relação de negócio, não publicação aberta. Neste guia nenhuma rede é nomeada, nenhum print é reproduzido e nenhum preço absoluto em reais aparece. O que aparece é a relação entre preços e as métricas que as próprias redes declaram, porque é isso que ensina a fazer a conta. A regra completa de origem está registrada na metodologia interna e vale pra série toda.

A pergunta errada e a pergunta certa

A pergunta errada tem três formas, e todas soam razoáveis na reunião: "qual é o maior?", "qual está mais em cima?" e "qual é o mais caro?". As três medem a mesma coisa, que é o quanto o espaço parece importante. Nenhuma delas mede o que ele entrega.

A pergunta certa é uma fração. Em cima, o que o espaço entrega: visualização, clique, adição ao carrinho, o que a superfície permitir medir. Embaixo, o que ele custa. E o custo não é só dinheiro: um espaço pode ser barato em reais e caríssimo em atenção, ou grátis em reais e caro em cliques. É por isso que o próximo capítulo abre o denominador em quatro.

Um caso que resume o capítulo inteiro. Duas peças na mesma home da mesma rede. A peça A é o banner principal, na oitava posição de um carrossel de oito, e custa o preço de banner principal. A peça B é um mini banner fixo, uma dobra abaixo, e custa uma fração disso. A peça A é vista por 29% de quem visita. A peça B é vista por 100% de quem chega naquela dobra. A conversa muda quando você para de comparar "banner principal contra mini banner" e passa a comparar exibições por real. Rotação é um eixo de negociação separado da dobra, e é o eixo que ninguém lista na tabela.

O erro de leitura mais caro do varejo digital

"Estar na home não é um lugar. É oito lugares diferentes, e sete deles são ruins."

02
Capítulo 2 · Os quatro denominadores

Todo espaço tem quatro custos. A tabela do varejo só mostra um.

Eficiência é uma divisão, e quem escolhe o denominador decide o resultado. A tabela comercial oferece o denominador mais confortável pra quem vende, que é o preço. Os outros três nunca aparecem impressos, e são justamente os que separam o espaço caro do espaço eficiente.

DenominadorPergunta que ele respondeOnde o dado moraQuem controla
01 · ReaisQuanto custa esse espaço no contrato?Tabela do mídia kit, cota mensal, pacoteNegociação. É o único que a mesa já discute bem.
02 · ExibiçãoDe cada cem visitantes, quantos chegam a ver a peça?Rotação do carrossel, dobra, plataforma (app ou site)O varejo. Se pergunta, às vezes responde. Quase nunca está na tabela.
03 · AtençãoDos que viram, quantos processaram? Quanto tempo o olho ficou ali?Eyetracking público, curva de scroll, hierarquia visual da peçaMetade sua, metade do varejo. A peça é sua; o lugar é dele.
04 · CliquesQuantas ações separam o shopper da informação que decide a compra?Sua própria PDP: galeria, ficha técnica, abas, "ver mais", conteúdo enriquecidoVocê, sozinho, de graça. É o denominador que ninguém cobra e ninguém otimiza.

Os quatro se multiplicam, não se somam. Um banner caro, numa posição rotativa, numa dobra baixa, levando a uma PDP onde o atributo decisivo está escondido atrás de dois cliques, não perde 20% de eficiência: perde a maior parte dela, porque cada estágio corta uma fatia do que sobrou do anterior. É por isso que a peça bonita, comprada no espaço nobre, às vezes não move nada, e ninguém consegue explicar por quê. A explicação normalmente está espalhada entre os quatro denominadores, e nenhum deles é escandaloso sozinho.

OS QUATRO CORTES ACONTECEM EM SEQUÊNCIA, NÃO EM PARALELO 1.000 visitantes chegam na página ponto de partida 290 veem a peça Denominador 02 · exibição: carrossel de 8 posições, 29% de chance O espaço fixo não teria esse corte 163 Denominador 03 · atenção: peça fora da faixa que concentra o olhar Ver não é processar 49 Denominador 04 · cliques: rastro frio no destino, informação escondida O único corte que você conserta sozinho Exemplo ilustrativo. Só o primeiro corte (29%) é um número medido; os outros dois mostram a forma da conta, não magnitudes reais. O denominador 01, o preço, não corta gente: ele divide o que sobrou no fim. É por isso que ele entra por último na conta.
Quatro cortes em sequência, cada um sobre o resto do anterior

A conta, com números redondos

Imagine dois espaços na mesma home, com o mesmo público de mil visitantes. O espaço A é o banner principal, oitava posição de um carrossel de oito, e custa 2,4 vezes o espaço B. O espaço B é um mini banner fixo, uma dobra abaixo. Só o denominador 02 já resolve boa parte da discussão: o espaço A é exibido pra cerca de 290 pessoas, o espaço B pra todas as mil que chegam naquela dobra. Antes de qualquer consideração sobre criatividade, tamanho ou nobreza, o espaço A entrega menos de um terço das exibições por 2,4 vezes o preço. São oito vezes menos exibições por real.

Esse número não decide sozinho, e é importante dizer por quê. Exibição não é clique, clique não é venda, e a qualidade da audiência de cada dobra pode ser diferente. Mas a conta obriga a conversa certa: se o espaço A ainda assim for melhor, ele precisa ser oito vezes melhor em alguma outra dimensão pra empatar. Quando a pergunta é feita desse jeito, a mesa inteira muda de assunto, e é aí que aparece o que a proposta não dizia.

Por que o denominador 04 é o mais valioso

Os três primeiros denominadores se negociam. O quarto se conserta. Reduzir o número de ações entre o shopper e a informação que decide a compra dele não depende de aprovação de ninguém, não entra em cota mensal e não tem fila de publicação. É trabalho de cadastro, de ordem de galeria e de hierarquia de conteúdo, e o retorno é imediato porque vale pra todo o tráfego que chega, comprado ou orgânico.

Só que ele exige uma inversão de raciocínio que o capítulo 5 detalha, e que contraria o senso comum de e-commerce: o custo do clique não é o clique. É a incerteza sobre o que vem depois dele.

Como usar essa tabela na prática. Antes de comparar dois espaços, escreva os quatro denominadores de cada um numa linha. Onde você não tiver o número, escreva "não sei" em vez de deixar em branco: um "não sei" no denominador 02 é a pergunta mais barata que você vai fazer no ano, e é a única do conjunto que só o varejo pode responder. Peça por escrito, junto com a proposta.
03
Capítulo 3 · Exibição: a rotação come a posição

Um espaço que gira é um sorteio, não um lugar.

Quando um banner é rotativo, você não comprou uma posição: comprou um bilhete. A cada visita, a plataforma decide qual das peças mostrar primeiro, e a sua entra na fila. Se o carrossel tem oito posições e a sua é a oitava, a chance de a peça aparecer pra quem chegou é da ordem de 29%. É o único número de probabilidade de exibição encontrado nos materiais analisados, e ele veio de um relatório de resultados, não de um kit de venda. Nenhuma tabela comercial declara isso espontaneamente.

O mesmo relatório mede o outro lado: um mini banner fixo, posicionado numa dobra mais abaixo, entrega 100% de chance de exibição pra quem chega naquela altura da página. Ele não sorteia, porque não gira. E aqui aparece a conclusão que não está em nenhum kit: posição alta em espaço rotativo pode valer menos que posição baixa em espaço fixo. Rotação e dobra são dois eixos independentes, e só um deles costuma entrar na negociação.

Comparacao entre um carrossel que gira e um banner pequeno fixo na parede
O que gira sorteia. O que fica, aparece

O que a medição pública de carrossel já mostrava

A distribuição de cliques dentro de um carrossel é ainda mais desigual que a de exibição. A maior medição pública disponível acompanhou cinco propriedades por três meses e quase 29 mil cliques: o primeiro slot concentrou 84% dos cliques, e cada slot seguinte ficou com cerca de 4%. O contexto é institucional, não varejista, então o número serve como ordem de grandeza e não como benchmark de e-commerce. Mas a forma da curva se repete em toda medição séria de carrossel desde então, e ela é brutal: o slot 1 não é "um pouco melhor" que o slot 5. É outra categoria de ativo.

Junte as duas coisas. A chance de ser exibido cai com a rotação; a chance de ser clicado desaba fora do primeiro slot. Comprar "banner principal" sem perguntar qual posição do carrossel, e sem perguntar quantas peças giram naquele espaço, é comprar um número que ninguém escreveu na proposta. A régua completa de negociação desses ativos está no Nº 15 · JBP Digital Avançado, e a de cobrança do que foi entregue está no Nº 18 · JBP · A Revisão.

84%
dos cliques de um carrossel manual ficaram no primeiro slot; cada slot seguinte ficou com cerca de 4%.
Runyon, 5 sites, 28.928 cliques, 2013
3,4x
é a diferença de exibição entre o mini banner fixo (100%) e a oitava posição rotativa (29%) da mesma home.
Cálculo Salll sobre relatório 2026 · atacarejo
3,1x
é a razão entre o desempenho declarado do banner principal no app (40%) e no desktop (13%) de um varejo nacional. Duas superfícies, um nome só na tabela.
Mídia kit 2026 · varejo alimentar nacional (anonimizado)
As três perguntas que destravam essa parte da mesa. Quantas peças giram nesse espaço? Qual é a minha posição na rotação, e ela é fixa ou também sorteada? E o número de exibição que você me deu vale pro app, pro site, ou é uma média dos dois? A terceira parece detalhe e não é: quando uma rede separa app de site, a diferença declarada entre as duas superfícies chega a três vezes. Comprar pacote de home sem separar app de site é diluir o ativo bom no ativo ruim, pagando a média.

O que a curva de cliques da home ensina

"Entre o banner principal e a vitrine logo abaixo, uma rede perde 97,7% dos cliques."

04
Capítulo 4 · Atenção: a página não é plana

A distância entre duas dobras não é de centímetros. É de ordem de grandeza.

Uma rede de farmácia declara no próprio kit a moeda mais honesta que apareceu nos materiais analisados: cliques semanais médios, ativo por ativo, de cima pra baixo da home. A curva é esta, e ela deveria estar impressa na parede de todo time de trade digital.

CLIQUES SEMANAIS MÉDIOS · MESMA HOME, DE CIMA PRA BAIXO Banner principal 9.025 Banner secundário 2.698 -70% Vitrine de produtos 209 -92% Logo de marca 175 -16% Banner de rodapé 135 -23% Do topo ao rodapé: -98,5%. Todos esses ativos são vendidos como "presença na home". Fonte: mídia kit 2026 de rede de farmácia, anonimizado. Métrica declarada pela própria rede.
A home não é um lugar: é uma escada que desce rápido

Repare no segundo degrau, que é o mais desconfortável: do banner secundário pra vitrine de produtos, a queda é de 92%. Entre o topo e a vitrine, 97,7%. Não estamos falando de páginas diferentes, nem de superfícies diferentes: é a mesma home, na mesma visita, com alguns centímetros de rolagem de distância. O que muda não é o lugar. É quanta gente ainda está olhando quando o lugar aparece.

O que o eyetracking diz sobre para onde o tempo vai

A medição independente mais recente sobre profundidade de página vem de um estudo com 120 participantes e mais de 130 mil fixações oculares. Ele mede a distribuição do tempo de olhar por profundidade: 57% do tempo de visualização acontece acima da dobra, 74% nas duas primeiras telas e 81% nas três primeiras. Dentro da primeira tela a concentração é ainda mais desigual: 42% do tempo total fica nos 20% do topo do conteúdo.

Vale registrar o que mudou, porque o dado é frequentemente citado errado: em 2010 o mesmo grupo mediu 80% acima da dobra. As pessoas passaram a rolar muito mais em quinze anos. A conclusão prática não se inverteu, ela se deslocou: o que rendia numa tela agora rende em três. Fora dessas três telas sobram 19% do tempo pra todo o resto da página, por mais longa que ela seja.

57%
do tempo de visualização acontece acima da dobra; 74% nas duas primeiras telas e 81% nas três primeiras.
Nielsen Norman Group · 120 participantes, 130 mil fixações
42%
do tempo total de olhar fica nos 20% do topo do conteúdo. Dentro da primeira tela a desigualdade se repete.
Nielsen Norman Group · eyetracking de scroll
19%
do tempo sobra pra tudo que estiver além da terceira tela, independente do tamanho da página.
Cálculo sobre os mesmos dados
A tradução disso pra dentro da sua PDP. A curva de atenção não vale só pra home do varejo: vale pra sua página de produto também. O que você colocou na terceira tela do seu conteúdo enriquecido está disputando 19% do tempo com todo o resto. Isso não quer dizer "faça páginas curtas": quer dizer que a ordem dos módulos decide o que é lido, e que o argumento que só existe no rodapé praticamente não existe. A régua de ordem de módulos está no Nº 03 · Conteúdo Enriquecido, e a de ordem de imagens no Nº 01 · Método VALOR.

Atenção é custo, e ela é gasta antes de qualquer leitura

Há uma diferença importante entre ver e processar. A curva de fixação mede onde o olho pousa; ela não garante que a informação foi absorvida. Uma peça que exige interpretação, com três mensagens competindo e nenhuma hierarquia, é vista e não é processada. Do ponto de vista da eficiência, isso é pior que não ser vista, porque o custo já foi pago pelo espaço.

É por isso que este guia trata atenção como denominador, e não como resultado. Cada elemento a mais numa peça, cada palavra a mais num título, cada opção a mais numa comparação, é uma cobrança feita ao mesmo orçamento cognitivo limitado do shopper. Os dois fundamentos disso estão no Nº 07 · Carga Cognitiva e no Nº 10 · Processamento Visual e Priming. Aqui o que interessa é a consequência prática: a peça mais eficiente não é a que diz mais. É a que exige menos pra dizer o suficiente.

05
Capítulo 5 · Cliques: o mito dos três e o custo real

A regra dos três cliques é falsa. E o que ela esconde custa caro.

Existe uma frase que sobreviveu vinte e cinco anos em reunião de e-commerce sem nunca ter tido dado por trás: "tudo tem que estar a no máximo três cliques". Ela é confortável porque é simples, e é perigosa porque desloca a atenção do problema certo pro problema errado.

Em 2003, um estudo acompanhou 44 usuários realizando 620 tarefas, analisando mais de 8.000 cliques reais. O resultado não deixou margem: não houve correlação entre o número de cliques e o sucesso em encontrar o que se procurava. As pessoas continuaram navegando muito além do terceiro clique, algumas visitando até 25 páginas antes de parar. Só aos quinze cliques 80% das tarefas estavam completas. E a insatisfação declarada, que variou entre 46% e 61%, não acompanhou o comprimento do caminho: quem completou em dois cliques não ficou mais satisfeito que quem completou em nove.

620
tarefas reais, com 44 usuários e mais de 8.000 cliques analisados, sem nenhuma correlação entre número de cliques e sucesso da tarefa.
Porter, User Interface Engineering, 2003
15
cliques é onde 80% das tarefas se completam. As pessoas não desistem no terceiro: desistem quando param de entender o caminho.
Porter, 2003
46-61%
foi a faixa de insatisfação declarada, igualmente distribuída entre caminhos curtos e longos. O comprimento não previu a frustração.
Porter, 2003

A revisão feita pelo Nielsen Norman Group em 2019 chega à mesma conclusão e nomeia o que realmente prevê o sucesso: rótulo com sinal claro. Um link que diz exatamente o que existe do outro lado sustenta uma sequência longa; um link vago quebra uma sequência curta. E o grupo é explícito ao dizer que contar cliques, sozinho, não é métrica: o que importa é o custo de interação, que soma esforço cognitivo, espera e erro, e não o número de vezes que o dedo tocou a tela.

Dois corredores: um curto sem placas nas portas e outro longo com placas iluminadas
Seis portas sinalizadas ganham de duas portas sem placa

O nome do mecanismo: rastro de informação

A base teórica disso é anterior à web comercial. Em 1999, Pirolli e Card publicaram a teoria de forrageamento de informação, que descreve o comportamento de busca humana com o mesmo modelo usado pra descrever animais procurando comida: a pessoa segue o rastro, avaliando a cada passo se está mais perto ou mais longe do que quer, e abandona a trilha quando o rastro esfria. Não é o número de passos que decide o abandono. É o momento em que o próximo passo deixa de parecer promissor.

Traduzido pra prateleira digital, isso muda inteiramente o que se otimiza. Não é "reduzir cliques". É garantir que cada clique confirme a direção. Uma galeria de imagens em que a segunda foto responde exatamente à dúvida que a primeira levantou é um rastro quente. Uma aba chamada "Informações adicionais" é um rastro frio, independentemente de estar a um clique de distância.

Onde o clique aconteceRastro frio (custa caro)Rastro quente (custa pouco)Régua completa
GaleriaSeis imagens do mesmo ângulo do pack: cada clique entrega o que o anterior já entregouCada posição responde a uma pergunta diferente e visível pelo thumbNº 01
Ficha técnicaAtributo decisivo da categoria só aparece depois de expandir "ver mais"Atributo que elimina ou qualifica na comparação fica no bullet, acima da dobraNº 02
VariaçãoSabor ou tamanho sem variação cadastrada: o shopper volta pra busca pra achar o irmão do produtoFamília cadastrada como variação, troca sem sair da páginaNº 14
Conteúdo enriquecidoArgumento de decisão no último módulo, na terceira tela, disputando 19% do tempoMódulo de comparação e de uso no meio, onde ainda há tempo de olharNº 03
ReviewsNota agregada sem nenhuma linha de review visível sem clicarTrecho de review visível na dobra da decisão, com a notaNº 11

Quando um clique a mais melhora a página

A conclusão do capítulo não é "menos cliques". É "cliques com sinal". E há casos em que adicionar uma ação melhora a eficiência, porque ela reduz carga em vez de aumentar.

O caso mais comum é a variação. Uma família de produtos cadastrada como variação obriga o shopper a um clique pra trocar de sabor, tamanho ou intensidade. Sem a variação cadastrada, ele não dá esse clique: ele volta pra busca, digita de novo, e reentra na comparação com todos os seus concorrentes. Um clique dentro da sua página é mais barato que zero clique fora dela. O mesmo vale pro filtro dentro de uma lista longa, pra aba de perguntas e respostas quando ela responde a dúvida real da categoria, e pro segundo nível de detalhe técnico quando o primeiro já entregou a decisão.

A régua prática é simples e cabe numa pergunta: esse clique diminui a incerteza ou apenas adia a informação? Se ele responde algo, é investimento. Se ele só esconde, é custo. É o mesmo critério que separa uma galeria construída de uma galeria empilhada, e ele vale igual pra mídia: um banner que promete o que a página entrega esquenta o rastro, e um banner que promete o que a página não tem esfria dois estágios de uma vez.

O erro simétrico, que também é caro. Existe um exagero na direção oposta: espremer tudo na primeira tela pra "não ter clique". Isso troca custo de navegação por custo cognitivo, e o segundo é pior, porque é pago por todo mundo ao mesmo tempo e não é opcional. Uma página que mostra dezoito informações simultâneas não tem custo de clique nenhum e mesmo assim perde a decisão, porque ninguém consegue processar dezoito coisas de uma vez. O fundamento disso está no Nº 07 · Carga Cognitiva, e a versão quantitativa, no efeito de sobrecarga de escolha, no Nº 12 · A Psicologia do Preço.
O que fazer com isso na segunda-feira. Pegue os cinco SKUs que mais vendem e responda, um por um: qual é a pergunta que faz o shopper desistir dessa categoria? Agora conte quantas ações separam a chegada na página da resposta a essa pergunta. Se a resposta estiver atrás de um "ver mais", de uma aba ou de um scroll até o rodapé, você tem um problema de eficiência que não custa nada pra consertar, e que nenhum aumento de verba de mídia resolve.

A inversão que este capítulo propõe

"O custo do clique não é o clique. É a incerteza sobre o que vem depois dele."

06
Capítulo 6 · Momento: audiência grande contra audiência madura

A home tem mais gente. A busca tem gente que já disse o que quer.

Existe um quinto fator que não é exatamente um denominador, mas multiplica todos os outros: em que estado mental o shopper está quando encontra a sua peça. Quem acabou de chegar na home está em modo de orientação. Ainda está entendendo onde está, o que tem em oferta, se veio pelo motivo certo. Quem digitou um termo na busca já formou intenção: sabe o que quer, e agora está filtrando.

Os kits analisados dizem isso com os próprios números, e contra o próprio interesse. Um supermercado regional declara que 60% dos usuários compram pela busca, contra 40% que compram navegando por categoria. E cobra pelo banner de busca, por termo, o mesmo que cobra por um mini banner de home. Um varejo alimentar nacional coloca o produto promovido em busca no topo da própria escala de conversão declarada, acima dos formatos de home. Quem compra home e não compra busca está pagando mais caro por intenção menor.

60/40
é a divisão declarada entre compras que começam na busca e compras que começam na navegação por categoria.
Mídia kit 2026 · supermercado regional (anonimizado)
=
é a relação de preço entre o banner de busca por termo e o mini banner de home nessa mesma rede. Mesmo preço, intenção incomparável.
Mídia kit 2026 · supermercado regional (anonimizado)
Piso
A página de marca está inclusa em todas as cotas, inclusive a menor, de um varejo nacional. Ela é piso de negociação, não prêmio: se cobrarem à parte, questione.
Mídia kit 2026 · varejo alimentar nacional (anonimizado)

A ponte entre mídia e busca orgânica

Há uma consequência de planejamento que quase ninguém opera: se o banner de busca é vendido por termo, e o produto promovido é vendido por posição em termo, então a sua tabela de share de busca deixa de ser um relatório e vira uma lista de compras. Os termos em que você não aparece organicamente são exatamente os termos que valem comprar; os termos em que você já lidera são os que não valem, porque você estaria pagando por um lugar que já tem.

Essa é a leitura que transforma o denominador em decisão: não se compra "presença em busca". Compra-se o gap medido entre onde você está e onde a demanda está. A metodologia de medição de share de busca está no Nº 18 · JBP · A Revisão, e o que a marca controla no texto que faz aparecer organicamente está no Nº 02 · Títulos e Descrições GEO-ready.

Onde o momento também aparece dentro da PDP. A mesma lógica de estado mental organiza a sua página. As primeiras posições da galeria falam com quem ainda está confirmando que chegou no produto certo; as últimas falam com quem já decidiu comprar e está buscando permissão pra fechar. Colocar o argumento de garantia na primeira imagem é responder uma pergunta que ninguém fez ainda, e deixar a identificação do produto pro fim é atrapalhar a única coisa que importa nos primeiros segundos. É esse o raciocínio do Nº 01 · Método VALOR.
07
Capítulo 7 · Medir sem se enganar

Toda métrica declarada é uma fração com o denominador apagado.

O capítulo mais desconfortável deste guia é o que ensina a duvidar dos números que chegam prontos, inclusive dos bons. Um dos mídia kits analisados declara a conversão geral do site em 2,77%. No mesmo documento, atribui 40% de conversão a um ativo de home do aplicativo. Os dois números convivem em páginas próximas, e ninguém questionou.

Nenhum banner converte quatorze vezes a média do próprio site. O número de 40% é quase certamente a conversão do grupo que clicou, medida depois do clique, ou uma atribuição dentro de uma janela, sem grupo de controle. Isso não faz dele um número falso: faz dele um número que só serve pra ordenar ativos dentro daquela rede. Usar ele pra comparar com outra rede, pra justificar verba, ou pra prometer resultado interno, é multiplicar um erro.

Uma fracao gigante com o numerador visivel e o denominador apagado
O numerador está sempre em negrito. O denominador quase nunca aparece
As três perguntas que destravam qualquer número de retail media. 1. Qual é o denominador? Impressões servidas ou peças efetivamente renderizadas em tela? Visitantes ou sessões? Cliques ou pessoas? 2. Qual é a janela de atribuição? Uma conversão contada quinze dias depois do clique inclui muita compra que teria acontecido de qualquer jeito. 3. Existe grupo de controle? Sem alguém que não viu a peça, não existe medição de efeito: existe descrição de quem comprou. Sem as três respostas, o número é ordenação, não medição.

Dois sinais de alerta que aparecem com frequência

O primeiro é a taxa impossível. Um kit declara CTR entre 28% e 37% num banner exibido dentro da tela de acompanhamento de pedido. Esse patamar não existe em display servido. O que provavelmente existe ali é um denominador diferente: banner renderizado numa tela cativa, onde o usuário está esperando algo acontecer e tem pouco mais o que olhar. O número pode até ser verdadeiro no denominador dele. Ele simplesmente não é comparável a nenhum outro CTR da sua planilha.

O segundo é a moeda escolhida. Cada rede declara a métrica que lhe convém: uma fala em preço e alcance, outra em taxa de conversão, outra em cliques semanais, outra em retorno sobre investimento em mídia. Montar comparativo entre redes exige um denominador comum que nenhum kit fornece. Essa é a observação mais útil da análise: a moeda que a rede escolhe declarar já diz o que ela prefere não mostrar. Quem só fala em alcance normalmente não tem conversão pra mostrar; quem só fala em conversão pós-clique normalmente não tem volume.

Métrica declaradaO que costuma significar de fatoServe praNão serve pra
Alcance / impressõesPeças servidas, não necessariamente vistas. Não desconta rotação nem dobra.Dimensionar teto de audiênciaComparar eficiência entre formatos
Conversão do ativoConversão do grupo que clicou, em janela, sem controleOrdenar ativos dentro da mesma redeComparar redes ou projetar receita
Cliques semanaisMédia histórica do inventário, não garantia da sua campanhaLer a curva de dobra da homeEstimar conversão
Retorno sobre mídiaReceita atribuída em janela declarada, geralmente pós-cliqueAcompanhar tendência da mesma campanhaProvar incrementalidade
Chance de exibiçãoA métrica mais honesta do conjunto, e a mais raraComparar espaços de verdadeNada. Peça essa.

Repare na última linha. De todos os números levantados nos materiais analisados, o mais útil pra decisão foi o mais raro: probabilidade de exibição. Ele apareceu uma única vez, e não num kit de venda, mas num relatório de resultados prestado depois. É esse o número que você deve pedir antes de assinar, e é ele que reorganiza a tabela inteira de eficiência.

08
Capítulo 8 · A régua: como comparar dois espaços quaisquer

Uma folha, quatro linhas, e a discussão muda de assunto.

Toda a teoria dos capítulos anteriores cabe numa folha. A régua abaixo não produz um número mágico de eficiência: produz uma comparação honesta, que expõe o que você sabe e o que está supondo. Na maioria das mesas, isso já é suficiente pra mudar a decisão, porque o lado que tem a coluna preenchida ganha a conversa.

Escreva os dois espaços lado a lado, com o preço relativo

Não use o valor absoluto: use a razão. "O espaço A custa 2,4 vezes o espaço B." Razão é o que sobrevive à variação de tabela entre redes e é o que você vai poder reaproveitar no ano seguinte.

Preencha a chance de exibição de cada um, ou escreva "não sei"

Rotativo ou fixo? Quantas peças giram? Qual posição? App ou site? Se a resposta não estiver na proposta, peça por escrito. Um "não sei" declarado vale mais que uma estimativa inventada, porque vira pergunta na reunião seguinte.

Anote a dobra e o que a curva de cliques da rede diz sobre ela

Se a rede declara cliques por ativo, use os números dela. Se não declara, use a ordem de grandeza conhecida: cada degrau abaixo do topo costuma perder a maior parte do que o degrau anterior entregava. Registre qual dos dois casos você está usando.

Conte os cliques do destino, não só os da peça

Uma peça eficiente que leva a uma PDP onde a informação decisiva está escondida desperdiça a própria eficiência. Conte quantas ações separam a chegada da resposta, e trate isso como parte do custo do espaço, porque é.

Faça as três perguntas de medição antes de aceitar qualquer número

Denominador, janela, grupo de controle. Se as três não tiverem resposta, o número entra na folha marcado como "declarado", em outra cor, e não é usado pra projetar nada.

Decida pela razão, e registre a decisão com a data

Escolha o espaço com melhor entrega por unidade de custo, não o com melhor aparência. E guarde a folha: no ciclo seguinte, ela é o que permite comparar o que foi prometido com o que aconteceu, que é o único jeito de a régua ficar mais precisa a cada rodada.

O que essa régua não faz. Ela não prevê venda. Nenhum dos quatro denominadores promete resultado comercial, e este guia não faz essa promessa em nenhuma linha. O que ela faz é impedir que a decisão de espaço seja tomada pela peça mais bonita ou pela posição mais nobre, quando os números disponíveis apontam pro outro lado. Eficiência é uma disciplina de comparação, não uma garantia de retorno.
O antes e o depois

A mesma verba, a mesma marca, duas contas diferentes.

O contraste final, com a marca-demo. A mesma Café Salll Manaus, o mesmo trimestre, o mesmo valor investido em espaço dentro de um varejo. A única variável é qual pergunta foi feita antes de assinar. O cenário é ilustrativo e serve pra mostrar o raciocínio, não pra prometer número.

DecisãoComprando destaqueComprando eficiência
O espaço principalBanner principal da home, porque é o mais nobre da tabela. Ninguém perguntou a posição na rotação: era a oitava de oito.Perguntou antes. Diante de 29% de exibição, trocou por um formato fixo e usou a diferença de preço pra comprar busca por termo.
A escolha de superfíciePacote de home fechado, app e site juntos, pagando a média entre o ativo que performa e o que não performa.Separou app de site na negociação, depois de ver a diferença declarada de três vezes entre as duas superfícies.
Os termos de buscaComprou os termos onde a marca já era líder orgânica, porque eram os que apareciam bem no relatório.Comprou o gap: os termos de categoria onde o café não aparecia, medidos antes na tabela de share de busca.
A página que recebeu o tráfegoIntensidade e método de preparo só na ficha técnica, atrás de "ver mais". Torra e origem em nenhum lugar visível.Intensidade, moagem e origem amazônica de Apuí no bullet e na segunda imagem, onde a dúvida aparece.
O número que foi pro relatório"40% de conversão no ativo de home", copiado do kit e apresentado como resultado da campanha.Exibições, cliques e o que aconteceu na PDP, com denominador escrito e a palavra "declarado" marcando o que veio da rede.
O que sobrou pro trimestre seguinteNenhuma base de comparação. A próxima negociação recomeça do zero, pela peça mais bonita.Uma folha com os quatro denominadores preenchidos, e as perguntas que faltaram viram cláusula na próxima proposta.

Nenhuma linha da coluna da direita exigiu verba a mais. Quatro delas exigiram uma pergunta feita antes de assinar, e duas exigiram trabalho de cadastro que não passa por aprovação de ninguém. É esse o tamanho real da distância entre comprar destaque e comprar eficiência.

Espaço nobre é o que parece caro. Espaço eficiente é o que sai barato por unidade de entrega. Na maior parte das vezes, não é o mesmo espaço.A tese deste guia, em uma frase
Quem opera isso

Método bom é método operado. A Salll faz os dois.

A Salll trabalha na zona que é da marca dentro do varejo: constrói a execução no método e produz a prova documental que sustenta a mesa. Não promete vender mais. Entrega o básico no nível máximo, medido, com o denominador escrito ao lado de cada número.

Monitorar

Rota Digital: verificação diária de preço, promoção, banner e disponibilidade, varejo a varejo, com prova datada e classificação por estado. É o que transforma "o banner rodou" em evidência com data e hora. Operação instalada na LATAM, mais de 85 sites em 4 países.

Executar

PDP completa no método: imagens VALOR, títulos por arquétipo, bullets estruturados, descrição preparada pra busca e IA, conteúdo enriquecido nos módulos oficiais de cada varejo. É onde o quarto denominador, o de cliques, se conserta.

Caio Salim

Caio Salim · fundador da Salll

Ex-sócio de operação Amazon na Europa, hoje à frente da metodologia Salll de execução em digital shelf. Este ebook é parte da série que documenta o método, capítulo a capítulo.

Execução de prateleira digital. Enxergamos, priorizamos, criamos, acionamos e confirmamos.